Cinco anos de haikus
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Neste quinto aniversário, mas que é o sexto ano (confuso?), em jeito de retrospectiva, fomos aos arquivos, escolhemos e comentámos, cada um, seis haikus do outro (um por ano).
Desfrutai!
2005 · 2006 · 2007 · 2008 · 2009 · 2010
2005, por Emanuel Viçoso
Tenho de escolher um haiku de cada ano, mas para 2005, o ano de início vou escolher um e meio.
O primeiro é o Meia de Leite, não porque o considere um dos melhores do JV, mas porque simboliza uma das principais temáticas do DH, a amizade entre duas pessoas radicalmente diferentes. Muita da motivação por detrás desta incursão na pseudo-poesia é a simples vontade de trocar sorrisos e ideias entre duas pessoas, dois amigos.
Este haiku é tão simples como essa intenção.
Meia de leite
Um ombro de amigo
Coração quente
E o meio é a primeira tríade do Luzes que passam, porque nestas três linhas o JV acerta em cheio em convocar uma imagem, uma fotografia, que é o aspecto do haiku que mais me diz. Em 17 sílabas é impossível expressar grandes conceitos filosóficos, a única coisa que se pode fazer é tentar invocar uma imagem, que fale por si.
Luzes que passam
Pelo corpo cansado
Final do dia
[…]
A primeira vez que li a frase «luzes que passam, pelo corpo cansado», imediatamente na minha mente vi as centenas de tardes em que exausto, ao fim de um dia, me apercebia vagamente das imagens e luzes que passavam por mim, na viagem de comboio de regresso a casa.
Aliás, gostei tanto desta primeira tríade, que revisei o tema um ano depois. Mas deixo para o JV o evocar dos meus haikus.
2005, por João Valado
Comecemos sem falinhas mansas. Amor, meu amor é muito provavelmente o haiku mais doloroso do DH, e escolho-o pela sua profundidade, em vez de um dos que fazem esboçar um sorriso. A Natureza, que tentamos trazer aos haikus, tem esta característica: a imensidão da sua beleza é comparável ao terror da sua força e à nossa fraqueza perante a mesma.
Amor, meu amor
Se dar-te eu pudesse
O que sonho é
De mim arrancar
Sangue, carne e vida
Para o sonho ver
Amor, meu amor
Só posso abraçar-te
Contigo sonhar
Poderia comentá-lo tentando pôr-me na pele de quem não conhece o sonho, mas prefiro alegrar-me com a concretização do mesmo (em dose dupla).
2006, por Emanuel Viçoso
2006 foi um ano de muita alegria, para o JV e para mim. O ano em que nasceram o Vicente e a Eva. Este Desejo traz-me um sorriso e uma humidade aos olhos. Foi um desejo que eu e a Dora tivemos durante 4 anos, que foi cumprido em 2006.
Ver tua face
Segurar-te nos braços
Ouvir-te chorar
O tema dominou o ano, claro. Topem-me este pai babado:
Delicadamente
Minha mão na tua face
Olá, meu amor
Chego. Tu dormes
Outro dia sem me veres
Não te embalei
Quero dizer-te
Que pensei tanto em ti
Um beijo mudo
Suave sorriso
Talvez sonhes comigo
Com o meu cantar
2006, por João Valado
EV sabe insultar com categoria. Mais, sabe pegar num qualquer pedaço de insulto e fazer poesia (voltaremos a este assunto em 2009). Pego no Macho latino, como exemplo.
Grande palhaço
Dizes-me com carinho
Amor másculoPorco nojento
Respondo comovido
Expressão d'afectoMurro ao ombro
Abraço com palmadas
Macho latino
O murro ao ombro e a expressão d'afecto têm tudo a ver com o DH, e são a base da amizade. Saber ouvir quando o caminho é duro e saber mandar calar quando cheira a basófia.
Evoco, também deste ano, as duas primeiras tríades do Em meus braços.
Olhas sem me ver
Fitas um som distante
Trovão e sombra
Dormes tranquilo
Seguro numa força
Que treme por ti
[…]
Novamente a imagem do temor que a Natureza pode trazer (trovão), e a sua comparação com o temor que podemos sentir em momentos tão belos.
2007, por Emanuel Viçoso
O JV escreveu que se fartou neste ano. Assim torna-se difícil escolher só um.
Por outro lado, acho que não podia escolher outro que não este 22.05.2007. Reflecte um momento de grande dor na vida do JV, mas expresso aqui com tanta esperança e reflectindo outro dos grandes temas recorrentes — o relacionamento com um Deus Pai, com todo o mistério, dúvida e conforto que só nele encontramos.
Quando acordar
O mar bravo enfrentar
Peço-Te forçaQuando recordar
Sej'a minha gratidão
A Tua alegriaO Teu reflexo
Naqueles ao meu lado
É a minha paz
2007, por João Valado
Novamente, fazemo-nos à estrada (em sentido figurado).
Esperas por mim
No fim desta estrada
Constante, fielNa hora certa
Oro pela coragem
Espero ter pazP'ra dar-te a mão
Sorrir ao olhar p'ra trás
E passar o rio
Há dois sentimentos que tem dominado o DH: a vida é uma viagem e que, por mais curvas e buracos que encontremos, só a fidelidade de Deus é constante e uma certeza.
2008, por Emanuel Viçoso
Outro tema recorrente, especialmente no JV, a insatisfação, a frustração, a dificuldade em encontrar satisfação (Mick Jagger? Também aparece nos haikus do JV) na rotina cega do dia a dia.
No meu caminhar
Ouço bandos de pardais
Bem alto cantarDomesticado
Olho pela janela
Desejo voarCom asas presas
Procuro as migalhas
Que caiem do Céu
Eva, Eva, tens total e completo controlo do coração do teu pai. Ainda bem.
O teu sorriso
Curioso. maroto
E desdentado
2008, por João Valado
Em jeito de preparação para 2009, em 2008 EV publicou poucos haikus (dois, para ser exacto), mas ambos dignos de destaque.
Primeiro, Pequenas coisas. Aqui está a descoberta que somos falhos, o anseio pela misericórdia e a esperança na redenção.
Fúria de Gata
Por sempre me esquecer
Do prometidoDesta vez, amor
Merecerei festinhas
Não te falhareiQueijo, fiambre
Ovos, manteiga e pão
Lista de compras
A salvação pode ser encontrada numa grande superficíe comercial!
Vive. Muitos haikus abordam o tema da insatisfação, o enfado da rotina e a vida na selva urbana, mas este é especialmente bem sucedido nessa tarefa.
Manhã, Acorda
Levanta, Lava, Come
Viaja, ChegaDia, Vê, Lê, Faz
Fala, Discute, Manda
Refaz, ResolveNoite, Viaja
Vê os olhos de riso
E então vive
Com cada acto marcado por uma maíuscula e uma virgula, este Vive expôe bem o sentimento de sermos meros robots, com gestos e acções friamente definidas e de tantas vezes, durante o dia, termos apenas doze sílabas para a verdadeira vida.
2009, por Emanuel Viçoso
O que se passou em 2009? O JV tem um haiku. Eu tenho zero.
Neste ano trabalhos juntos na mesma empresa. Talvez a presença constante num ambiente de trabalho tenha inibido a nossa criatividade. Se nos víamos todos os dias, para que escrever haikus? Parece que a nossa amizade apenas floresce à distância?
Seja como seja, esta escolha foi extremamente fácil.
Se do meu amor
Te esqueceres um dia
Não direi adeusNa doce canção
No tenebroso trovão
Eu te lembrareiPassos que demos
Os dias prometidos
Brilharão no céuNa madrugada
O reflexo, o cumprir
O doce chorar
2009, por João Valado
Este foi um ano muito produtivo para o EV, mas não em termos de haikus. Posto isto, pego num de 2010, que podia muito bem ter sido escrito em 2009, caso eu o tivesse provocado mais.
Prepar'o grito
Essas bochechas gordas
Desarmam a voz
Este haiku surgiu como resposta perante a minha dificuldade em insultar o EV. «João Valado: as tuas bochechas sugam-me todo o raciocínio lógico» (extracto do chat de 18.6.2010).
2010, por Emanuel Viçoso
O sexto ano, o tal do quinto aniversário.
Voltamos a estar longe um do outro, e os haikus também voltaram.
Do que o JV escreveu até agora, escolho este Fim da Batalha. O haiku é suposto ser uma única tríade. Mas como verdadeiros tugas, mandamos às urtigas as regras, e viemos a acrescentar tríades, conforme nos apetecia / dava jeito.
Este foi a primeira vez [em 2010 — nota do editor] que se escreveram 6 tríades.
O tema? A Eva outra vez. Surpresas?
Nuvem pesada
Promessa colorida
Lágrima felizO final do dia
Cinzas, trapos, suspiros
Tu iluminasNo mar revolto
Fina jóia encontrei
Puro sorrisoO ruído branco
Foge com uma melodia
Tua gargalhadaPequena David
Sem pedras me derrubas
E não resistoFim da batalha
Enterro a espada
Entrego tudo
2010, por João Valado
Termino esta retrospectiva com Teimosia.
Pele rasgada
Tanto do que fui morreu
O que sou é TeuOsso moído
Sonhos deixados p'ra trás
O amor ficouDo pó que restou
Mãos que tudo renovam
Faz algo novo
Esta é a nossa teimosia: que acima dos nossos cacos há um amor maior. Alguém que consegue fazer algo novo, mesmo quando apenas conseguimos dar tão pouco.
30 de Setembro de 2010